sábado, 6 de setembro de 2008

Mil anos-luz

Esta é a distância que o lugar onde eu nasci está da Terra. Eu sei. Eu sei, no fundo do peito, que sou uma alienígena.

Tá. Se não sou, chego bem perto. O mais perto que um humano conseguiria, ao menos. Minha nave devia estar caindo e alguém gritou "Retirem todo o peso desnecessário! Joguem para fora!". Pof. Lá estava eu caindo na Terra.

Bah, a quem quero enganar? Sou humana. Tão humana quanto qualquer outro humano. Mas sou tão diferente, não entendo porque. Parece que todas as pessoas já nasceram programadas, menos eu - ok, não todas, mas a esmagadora maioria. E eu só posso torcer que encontre alguém tão estranho quanto eu para dividir os meus pensamentos loucos.

Ah, mas tenho pensamentos tão comuns quanto quaisquer outros. Às vezes, em tempos de Mulher Melancia, me olho no espelho e me sinto um palito de churrasco. As clavículas aparecendo, as costelas um pouco visíveis, os ossos do quadril refletindo a luz. Não magra demais, apenas magra. Outras vezes, me sinto roliça como um cano de 4 polegadas.

43 kg distribuídos em 1,60m. Não estou magra demais. Como feito uma compulsiva, nunca entendi a minha magreza. O que posso fazer?... é a minha natureza, meus genes. Entretanto, obrigada, Deus, prefiro continuar assim. Um palito.

Tenho pensamentos comuns. As pessoas não deviam conjugar "mim", sabe?... Mim fazer não existe. Mim comer é coisa de índio ( índio inculto, que fique bem claro). Mim escrever é coisa de analfabeto funcional. Não tem que ser anormal pra pensar nisso, basta gostar de português.

Ah, tem alguém que vai me dar uma bronca danada... a Voz. Não, não é Frank Sinatra - embora eu ainda tenha esperança de ver um show dele depois que eu morrer. É a Voz que me fala, às vezes, dentro da minha cabeça. Mas ela vem de fora, na verdade, só parece de dentro. Eu já me perguntei várias vezes se não é simplesmente meu alter-ego ou um sintoma de esquizofrenia.

Bom, um alter-ego não costuma dar bronca, não é?... E a esquizofrenia costuma atingir mulheres entre 25 e 30 anos, eu sou nova demais pra isso. A Voz não fica brava por eu me questionar essas coisas, ela sabe que sou racional demais para simplesmente aceitar que há uma voz na minha cabeça falando comigo sem pensar em alguma possibilidade psicológia ou patológica. Ela sabe, ela me conhece - bem mais do que eu mesma, pode apostar. Mas eu acho que vou levar bronca dela.

Não porque eu detesto ver alguém conjugando o "mim". Mas é que eu não entendo, não entendo, o que diabos eu vim fazer na Terra. Não entendo minha serventia; não entendo meu propósito. Se tudo acontece por um motivo, eu também devia ter um para ter acontecido, certo? A Voz vai me dizer que talvez haja um motivo pra eu não saber, ou que ninguém sabe, ou que eu vou descobrir. Mas a Voz vai me dar bronca mesmo por causa da minha mania de tentar me rotular - ainda que seja como alien.

Ela me disse, um dia, de manhã logo depois que eu acordei, que há rótulos para todos os tipos de gosto. Mas eles muitas vezes não ajudam, e sim prejudicam as pessoas, pois elas ficam presas a limitações e coisas impostas pelo rótulo que escolheram. E ela afirma que elas escolhem seus rótulos muitas vezes, aceitam-os e às vezes até se espremem para tentar caber neles.

Ela disse que (fazendo uma alusão a uma conversa que eu tive com minha mãe outro dia, dizendo que me sentia como uma pessoa azul entre uma civilização de marrons) se cada pessoa que coubesse dentro de um rótulo patológico fosse assinalada com uma cor, não sobraria uma só pessoa "branca" na Terra. Nenhuminha. Se pudéssemos subir em um helicóptero e olhá-las de cima, o mundo pareceria habitado por formigas multicoloridas.

Pois seja alguém que poderia ser classificado como antisocial, ou uma pessoa com pavor de altura, ou alguém que goste de sentir dor, ou alguém com medo de mergulhar a cabeça na água, todos, todos os humanos poderiam ter uma classificação médica. Então ou não devia ficar achando que sou esquisita, estranha ou doente, seja lá o que for, só por que me sinto "azul". Azul é uma cor linda, é uma cor perfeitamente aceitável. Eu devia apenas parar de tentar achar um motivo para eu ser azul.

Pois é, vê que profundo? Foi o que ela me disse. Mas isso foi muito recente e - por favor, Voz, compreenda o meu lado! - são dezoito anos e seis meses de esquisitice. Não consigo simplesmente deixar isso pra lá de uma hora para a outra. Tenho vícios, defeitos, manias. Sou humana!

Ok, nenhuma bronca que a Voz me dá é negativa, é sempre para ajudar. Eu até gosto quando ela fala comigo; é como se alguém, mesmo que seja alguém que não está nesse plano, pudesse me entender. (Além da minha mãe; a sério, minha mãe é o único ser humano que me compreende de verdade, profundamente, e eu receio que talvez venha a ser o último.)

Enfim, talvez eu esteja ficando esquizofrênica. Posso quase ouvir a Voz rindo de mim, uma risada paciente, benevolente. Me dizendo que eu não estou ficando louca, mas que um outro lado de mim está despertando; que eu sempre soube que as coisas têm voz, as partículas tem voz, todo o universo tem seu próprio idioma, e agora estou reclamando por estar começando a ouví-lo. Mas são dezoito anos tentando ser uma pessoa comum sem conseguir!

Engraçado. Vou terminar com algo que a Voz está me dizendo.

Ela entende. Ela entende tudo isso. Ela só pede para que eu não desista de ser quem sou, não tente me espremer em um estereótipo. Ela entende minha angústia e diz que eu também não devia desistir dela, pois a angústia e as dúvidas freqüentemente apontam para coisas que precisam ser trabalhadas. Ela entende, e ela sabe que sou humana.

Pois sou humana. Por enquanto.

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