Alguém aí já comeu biscoito de gergelim? Ugh. É nojento. Meu irmão me coagiu a comer um há uns dois anos atrás e eu ainda me lembro, com dolorosa nitidez, do gosto daquilo.
Minha testa se franziu enquanto ele sorria, afirmando para si mesmo que era o melhor biscoito do mundo. Eu sorri, contrariada, sob a risada cúmplice da então namorada dele - ela soube, mas nada disse. Tonta de pavor com o gosto daquela coisa sobre minha língua, invadindo meus tão aguçados sentidos, dei meia volta e cambaleei na procura do algo que sequer sabia o que era. Quase chorei de alegria, então, quando a vi.
Ela.
A lixeira.
Fui discretamente em sua direção. Passos curtos, ora desviantes para a mesa, na tentativa de ocultar meu destino original. Ela jazia ali, branca e maravilhosa, apenas aguardando para ser minha salvação. Capturei um lacre de biscoito vazio, plástico transparente com fita adesiva vermelha, e sorri verdadeiramente feliz por ter achado uma desculpa.
Meu irmão ainda falava, adorando o gergelim sobre a fina massa de farinha, enquanto eu me dirigia silenciosamente para ela. A namorada dele ria, a cobra. Eu pisei naquele pequeno quadrado de esperança e a tampa se abriu revelando uma boca faminta por aquilo que eu desejava tanto expulsar. Abaixei-me e, inclinando-me sobre a lixeira, enfiei a mão para soltar o lacre enquanto abria minha boca e cuspia no mais puro silêncio o biscoito.
Voltei a ser eu mesma. Já não havia mais dor, não havia sofrimento, não havia agonia. Capturei meu copo de leite de soja e o tomei para tirar de uma vez por todas o gosto da minha boca. Gosto sinistro. Gosto de morte.
"Não é demais?" Meu irmão me perguntou, agitando o pacote.
"É. É demais." Eu respondi, sorrindo. Saí da cozinha e deixei ele olhando para a namorada, sem entender por que ela gargalhava sem parar.
domingo, 27 de julho de 2008
sábado, 26 de julho de 2008
Lift me up, baby!
Não entendo porque as pessoas têm tanto medo da morte. Que há de mal com ela? Onde encontraram indícios de maldade ou sadismo na coitada? Ninguém a conhece, aliás; por que tentam fugir tão desesperadamente dela?
Fugir do sofrimento, eu entendo. Ninguém são quer sofrer. E se quer, então porque não é sofrimento que procura, e sim qualquer outra coisa que o sofrimento traz consigo. Mas a morte? Gente, a morte é a única coisa que temos certeza que vamos enfrentar. Isso, pra ser sincera, me consola.
Saber que há algo ali, certo, que absolutamente nada vai tirar de mim, vai tirar do meu caminho. Um plano que não vai ser mudado jamais. Posso não saber quando ou como vou morrer, mas a certeza disso - a certeza, doce e generosa! - me dá base para viver.
Eu tenho vontade de rir quando vejo essa gente doida se entupindo de chás, parando de comer sal, açúcar, carboidrato, gordura, cafeína, lactose, carne vermelha, carne branca, comida. Fazendo horas de exercício todos os dias, dormindo exatamente oito horas (porque mais ou menos também envelhece), fazendo plástica, tomando complexos vitamínicos sem necessidade, bebendo quatro litros de água por dia, aplicando toxinas pelo corpo.
Eu não entendo.
Eu não entendo. Eu entendo álgebra, entendo as leis da Física, entendo os processos internos no organismo humano, entendo a gestação de um mamífero, mas não compreendo em nada gente que quer viver até os cem anos. A pessoa se lasca de trabalhar querendo construir um patrimônio que não lhe servirá de nada, casa e se divorcia seguidamente, passa os dias sem dar atenção aos filhos e depois os condena quando eles crescem e não lhe dão atenção, briga e se revolta contra Deus ao longo da vida, gasta rios de dinheiro com psicólogos/psiquiatras/gurus espirituais e remédios, e diz que viveria até os 180, se pudesse.
Isso pra mim não é amor a vida. Isso é pavor da morte. Não agiríamos todos diferente se soubéssemos que vamos morrer daqui a um ano? Não nos lamentaríamos de ter vivido tão pouco, não termos saltado de pára-quedas, não termos ido ao Carnaval de Salvador, não termos roubado um beijo daquela garota da escola, não termos pulado no mar de roupa e tudo, não termos tirado vinte minutos para fazer tudo isto em pensamento?
Não viveríamos de uma forma diferente? Então por que ao invés de viver, nos agarramos a ilusão de que quanto mais tempo tivermos de vida, mais gratificante será nossa experiência?
Isso é bobagem. E eu nunca saltei de pára-quedas, nunca fui ao Carnaval de Salvador, nunca roubei um beijo daquela garota na escola, nunca pulei no mar de roupa e tudo, mas já fiz isto e milhares de outras coisas na minha mente. Eu vivo minha vida na minha mente antes de vivê-la fora dela. É primeiro pensando que se pode aproveitar de verdade o que se faz, é através do pensamento que se começa a viver.
O pior é que tem gente que vive sem dedicar tempo para pensar.
Fugir do sofrimento, eu entendo. Ninguém são quer sofrer. E se quer, então porque não é sofrimento que procura, e sim qualquer outra coisa que o sofrimento traz consigo. Mas a morte? Gente, a morte é a única coisa que temos certeza que vamos enfrentar. Isso, pra ser sincera, me consola.
Saber que há algo ali, certo, que absolutamente nada vai tirar de mim, vai tirar do meu caminho. Um plano que não vai ser mudado jamais. Posso não saber quando ou como vou morrer, mas a certeza disso - a certeza, doce e generosa! - me dá base para viver.
Eu tenho vontade de rir quando vejo essa gente doida se entupindo de chás, parando de comer sal, açúcar, carboidrato, gordura, cafeína, lactose, carne vermelha, carne branca, comida. Fazendo horas de exercício todos os dias, dormindo exatamente oito horas (porque mais ou menos também envelhece), fazendo plástica, tomando complexos vitamínicos sem necessidade, bebendo quatro litros de água por dia, aplicando toxinas pelo corpo.
Eu não entendo.
Eu não entendo. Eu entendo álgebra, entendo as leis da Física, entendo os processos internos no organismo humano, entendo a gestação de um mamífero, mas não compreendo em nada gente que quer viver até os cem anos. A pessoa se lasca de trabalhar querendo construir um patrimônio que não lhe servirá de nada, casa e se divorcia seguidamente, passa os dias sem dar atenção aos filhos e depois os condena quando eles crescem e não lhe dão atenção, briga e se revolta contra Deus ao longo da vida, gasta rios de dinheiro com psicólogos/psiquiatras/gurus espirituais e remédios, e diz que viveria até os 180, se pudesse.
Isso pra mim não é amor a vida. Isso é pavor da morte. Não agiríamos todos diferente se soubéssemos que vamos morrer daqui a um ano? Não nos lamentaríamos de ter vivido tão pouco, não termos saltado de pára-quedas, não termos ido ao Carnaval de Salvador, não termos roubado um beijo daquela garota da escola, não termos pulado no mar de roupa e tudo, não termos tirado vinte minutos para fazer tudo isto em pensamento?
Não viveríamos de uma forma diferente? Então por que ao invés de viver, nos agarramos a ilusão de que quanto mais tempo tivermos de vida, mais gratificante será nossa experiência?
Isso é bobagem. E eu nunca saltei de pára-quedas, nunca fui ao Carnaval de Salvador, nunca roubei um beijo daquela garota na escola, nunca pulei no mar de roupa e tudo, mas já fiz isto e milhares de outras coisas na minha mente. Eu vivo minha vida na minha mente antes de vivê-la fora dela. É primeiro pensando que se pode aproveitar de verdade o que se faz, é através do pensamento que se começa a viver.
O pior é que tem gente que vive sem dedicar tempo para pensar.
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