Quem já teve inveja? Quem nunca teve?
Eu tive inveja uma vez, uma única vez, em toda a minha vida. Pode parecer estranho, mas é a verdade; e eu sei que foi somente uma vez porque foi o sentimento mais horrível, mesquinho e negativo que eu já tive. Era como um buraco se abrindo no meu coração, um grande buraco negro que engolia tudo de bom e me afundava em raiva e revolta. Pura inveja. Pura escuridão.
Engraçado que pouco tempo depois, o sentimento mais forte que eu tinha pela mesma pessoa que eu permiti-me sentir inveja foi pena. Percebi que ela não tinha nada que eu poderia realmente querer, nada que eu não tivesse, nada que valesse a pena. Notei então que eu devia ter inveja de mim mesma.
Às vezes, eu tenho inveja de mim mesma, hahahaha. A sério. Como em alguns dias em que eu me sinto feliz, tão feliz que nada pode abalar esse sentimento, nem o que acontece, nem o que aconteceu, nem o que acontecerá. É uma felicidade inalcançável pela maldade e tristeza. Apenas eu posso tocá-la.
E então é como uma dissociação - uma parte de mim sente inveja dessa parte feliz. E aí eu percebo que não há propósito em ter inveja de nada, nada, nem mesmo de eu mesma. Tudo é o mesmo. Eu sou uma só, eu sou todos que estão felizes e tristes. Tenho toda a felicidade do mundo dentro de mim, sem precisar dos eventos de fora. Não posso ter inveja do todo pois o todo se oferece, está disponível para quem quiser acessá-lo.
É como a maior fonte de downloads gratuitos do mundo. É como o Kazaa, como o Linux. Você quer, é só ir e pegar. Pegue tudo para você, pois pegar do todo não é tirar. O Todo é inesgotável. Terei eu inveja do quê, se tenho tudo?
Sou uma tola, às vezes. Somos todos tolos quando sentimos inveja, somo tão ingênuos! Tudo se agita a nossa frente e não conseguimos ver; a felicidade poderia dançar nua pintada de azul na nossa cara e não veríamos. É a ingenuidade do separativismo. Não há nada que não possamos ter, nada a que não temos acesso. Tudo está ali, tudo é perfeito, tudo muda e permanece igual.
Que tolice. Ter inveja de algo que não tem importância. E mais ainda, ter inveja de algo que tem importância. Pois o que tem importância qualquer um pode conquistar.
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