sábado, 12 de setembro de 2009

A carne está barata?

Chineses costumam encarar qualquer coisa que se mova como um alimento à sua disposição. Eles consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada religião do mundo no trato com os animais.

Nos tristemente famosos “mercados de vida selvagem” asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis, insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses mercados é um permanente festival de sangue, urina e fezes. Há mais do que cheiro ruim no ar: existe medo. E vírus de diferentes espécies novas se combinando uns com os outros.

As imagens mais chocantes registram o que esses mercados destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui viram membros da família, ajudam cegos ou orientam equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe enganar: esses mercados chineses não existem para “matar a fome do povo”. Chineses pobres comem frango e peixe. Os cães são “iguarias” caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias etc.

Eu tive a chance de ver fotos e vídeos desses mercados. Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até a morte. Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.

A pergunta básica é: nós, humanos, temos direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas bocas justifica tudo?

A questão ultrapassa a esfera da ética e da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando obrigamos o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha com cada homem africano que devora nossos primos biológicos, gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm origem em outras espécies animais. Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é bastante claro: “Vivemos num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor.”

Mercados chineses e churrascos africanos parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de alimentação animal. Temos uma churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.

Para tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí, todos nós pagaremos o preço.

Quando uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária já se espalhou por diversos países asiáticos e ameaça lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.

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Este texto é de autoria de Dagomir Marquezi, jornalista e editor sênior da revista Playboy. Foi publicado em março de 2004 na Superinteressante. Em 2004 não havia nem sombra de gripe suína, vírus que surgiu por causa da criação de porcos para consumo.

Não é impressionante como algumas pessoas parecem prever o futuro enquanto na verdade, só estão usando a lógica que muitas outras insistem em ignorar?

E algumas pessoas ainda não entendem quem diz que a humanidade caminha na direção da autodestruição. =P


sábado, 5 de setembro de 2009

T.P.M.

Apesar de ter um só significado oficial, essa pequena sigla tem muitos outros. Entre eles, Tô Para Matar. É o que mais se aplica a mim.

A coisa mais chata da TPM é que você fica cheia de sentimentos que quer despejar nos outros, morrendo de vontade de xingar as pessoas, mas em geral, você sabe que se fizer isso vai se arrepender quando ela passar.

Às vezes, porém, se pergunta se o arrependimento realmente viria ou se você está apenas querendo colocar pra fora o que engole nos outros 23 dias do mês.

Eu não sei. Sinceramente, não sei. Às vezes me acho muito burra, burra, burra - uma verdadeira anta bípede. Vontade de xingar de tudo quanto é nome não só uma pessoa em particular, mas eu, em primeiro lugar.

Não vou me xingar. Prefiro me elogiar. Parabéns, Tamires! Você é um gênio! Nunca houve sobre a Terra alguém mais brilhante do que você, com sua personalidade bizarra, suas escolhas erradas e seu gosto para perdedores!

Parabéns pra você. Parabéns pra mim. Sou uma idiota que só se aproxima de idiotas iguais a mim. Quem foi repelido por mim o foi por duas razões: ou porque é de uma imbecilidade maior do que a minha ou porque é uma pessoa normal demais para que eu possa suportar. Nesse caso, sinta-se elogiado.

Porra, viu. Mas que porra, que ódio. Que ódio! Se eu não tivesse tanto auto-controle estaria fodida. E se eu não estivesse tão longe da pessoa em quem quero bater. Talvez ela nem mereça, sei disso. Mas acho que na verdade merece sim - e muito. Tantos tapas e socos quanto eu conseguir dar.

E acredite em mim, com a raiva de uma TPM acumulada, eu consigo bater muito.